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Poluição da água
A água constitui um dos recursos
vitais para todos os seres vivos, nos quais desempenha múltiplas funções de
extrema importância. O homem pode suportar mais de uma semana sem comer
mas sem beber água sucumbirá ao fim de 4 a 5 dias. Cada ser humano bebe, em média,
de 2 a 3 litros de água por dia, o que quer dizer que o seu corpo é
atravessado por cerca de uma tonelada de água por ano.
Em média, a água representa entre 80% e 90% do peso dos seres vivos, chegando
mesmo a ultrapassar os 90% em alguns animais marinhos, como é o caso de algumas
medusas (95%). No homem, cerca de 65% do seu peso consistem em água.
Regra geral, o consumo de água per capta constitui um dos
indicadores de riqueza e qualidade de vida das populações e aumenta no mesmo
sentido que o desenvolvimento econômico e social. Por exemplo, enquanto nos países
ricos o consumo ultrapassa os 200 litros/habitante/dia, nas áreas rurais dos países
do Terceiro Mundo é, em média, inferior a 30 litros/habitante/dia.
O consumo de água cresce com a expansão industrial e urbana, o crescimento e
aumento do nível de vida da população e o desenvolvimento da agricultura.
a) O desenvolvimento industrial. Para o grande acréscimo do
consumo de água contribui em primeiro lugar o rápido crescimento da atividade
industrial. Com efeito, sendo a indústria um sector econômico grande
consumidor de água, naturalmente que o seu rápido desenvolvimento,
particularmente nos países desenvolvidos, implica um aumento de consumo de
recursos hídricos;
b) O crescimento da população. Em 1900, o mundo não tinha mais
de 1633 milhões de habitantes, enquanto hoje alberga cerca de 5500 milhões.
Obviamente que a este explosivo crescimento da população mundial corresponde
um extraordinário acréscimo do consumo de água. De resto, o consumo per
capita aumentou a um ritmo ainda maior do que o da população, devido à elevação
do nível de vida e aos progressos da higiene (crescente uso de casas de banho
residenciais, vulgarização de máquinas de lavar roupa e louça, maiores
cuidados com a higiene pessoal, rega de jardins particulares, lavagem de automóveis,
etc.);
c) O crescimento urbano. Em 1900, apenas cerca de 13 % da população
mundial viviam nas cidades. Atualmente ultrapassa os 40% e nos países
desenvolvidos vai além dos 70% ou mesmo 80%. Ora, este aumento da população
citadina não pode deixar de se refletir num substancial aumento de consumo de
água, na medida em que nas cidades o consumo médio no sector doméstico per
capita é, em regra, superior ao dos meios rurais;
d) O desenvolvimento da agricultura. O desenvolvimento e a
modernização da agricultura implica também um aumento do consumo de recursos
hídricos. Com efeito, sabendo-se que a irrigação das terras aumenta o seu
rendimento, compreende-se que se multipliquem as regas periódicas e se amplie a
área de regadio.
Fontes Poluidoras
A poluição
industrial
A indústria constitui, sem dúvida,
o sector de atividade mais poluidor da água. Nos circuitos de produção, a
água é utilizada como dissolvente ou reagente químico, na lavagem (com adição
de detergentes),
na tinturaria e no arrefecimento, acabando forçosamente por se poluir, e de
freqüentemente, tal maneira que se torna imprópria para quaisquer usos. Com
elevadas cargas orgânicas, químicas e substancias tóxicas e, por isso
extremamente venenosa, essa água é lançada, direta ou indiretamente, nos
rios, ribeiras, lagos e albufeiras, onde provoca graves desequilíbrios ecológicos,
com a morte de muitas espécies aquáticas e anfíbias. Por outro lado,
infiltrando-se no solo, vai envenenar as águas subterrâneas, cujas conseqüências
para a saúde pública são fáceis de adivinhar. Saliente-se ainda que se a
poluição de um rio ou ribeira podem ser combatidos eficazmente em alguns
anos, as toalhas subterrâneas, que se renovam muito lentamente, podem
manter-se contaminadas durante dezenas ou mesmo centenas de anos.
Nos países industrializados, como os Estados Unidos, França, Alemanha, Bélgica,
Itália, Reino Unido e outros, muitos rios e lagos e respectivas margens
constituem autênticas fossas a céu aberto. Com forte teor de cianetos, amônio,
nitratos e detergentes, tornaram-se biologicamente mortos, já que ali a vida
deixou simplesmente de existir.
A poluição agro-pecuária
Como já tivemos oportunidade de salientar, a maciça
utilização de fertilizantes químicos e pesticidas na agricultura moderna
tem como conseqüência, para além da poluição dos solos, a degradação
dos recursos hídricos, quer superficiais quer subterrâneos.
As águas das chuvas e de irrigação conduzem parte desses produtos para os
rios, lagos e albufeiras, onde provocam graves perturbações ou mesmo a morte
dos seres vivos pela ingestão da água envenenada. Por outro lado, e como
também já salientamos, pela infiltração desse produtos no solo eles podem
atingir as toalhas freáticas, degradando assim as águas subterrâneas, com
as conseqüências fáceis de calcular.
A pecuária moderna e a avicultura tornaram-se também fontes de poluição.
Dejetos, substancias químicas componentes das rações (nomeadamente hormônios),
sangue e pedaços de vísceras oriundas dos matadouros e detergentes
utilizados na lavagem das pocilgas, estábulos e aviários, são lançados nos
efluentes sem qualquer tratamento, inquinando também as águas superficiais e
subterrâneas, além do seu cheiro nauseabundo, que empesta a atmosfera.
A poluição doméstica
As atividades domésticas e hoteleiras (hotéis,
pensões, restaurantes) constituem também importantes fontes de poluição
das águas, em especial nas áreas de forte concentração urbana.
Carregadas com grandes quantidades de matéria orgânica, nutrientes e
microrganismos, as águas residuais e dos esgotos são também freqüentemente
lançadas, sem tratamento prévio, nos rios, lagos e albufeiras, o que
constitui uma grave ameaça para a saúde das populações.
Salinização
Os recursos hídricos utilizáveis podem ser superficiais
(rios, lagos, albufeiras de barragens, etc.) ou subterrâneos (nascentes
naturais, minas, poços e furos). Porém, em termos globais, a maior parte da
água potável consumida no mundo é de origem subterrânea.
Ora, é precisamente ao nível dos recursos subterrâneos que se coloca a
maior dificuldade de aprovisionamento de água potável. Com efeito, a intensa
exploração da água dos aqüíferos provoca uma excessiva descida das
toalhas freáticas de água doce, o que a pode tornar inacessível.
Por outro lado, quando o nível da toalha freática desce para além de
certo limite, dá-se a chamada intrusão salina, ou seja, a entrada de água
salgada nas toalhas freáticas, o que a torna imprópria para consumo. A
salinização das toalhas freáticas é particularmente freqüente nas zonas
baixas do litoral, embora ocorra também em áreas onde o subsolo é rico em
determinados minerais ricos em sódio e cloro, como é o caso do sal-gema.
Influência da Variabilidade dos Caudais dos Rios
Nas regiões cujos rios apresentam
grande variabilidade de caudal anual e interanual,
como acontece no nosso país, os problemas de degradação das águas
fluviais aumentam no período de estiagem. Isto porque o caudal fraco implica
um drástico decréscimo da capacidade de diluição dos poluentes, ou seja,
da capacidade autodepuradora. Em casos extremos, como quando ocorrem secas
prolongadas, em que o caudal é quase nulo (e por vezes com acumulação de águas
estagnadas nos sectores de fraco declive), o grau de degradação das águas
atinge níveis elevadíssimos, fora do usual.
Refira-se também que a retenção das águas fluviais nas grandes barragens
implica, quase sempre, uma redução do caudal dos rios a jusante,
principalmente na época estival.
Mas este problema aumenta ainda mais com a crescente imprevisibilidade do
regime das águas correntes.
Como se sabe, os rios são alimentados, diretamente, pelas
chuvas, e, indiretamente, pelas nascentes localizadas ao longo do seu
percurso. Daí que os caudais se possam manter relativamente elevados mesmo
nos períodos de ausência de precipitações.
Mas nas regiões de solo desnudado, devido, muitas vezes, à desmatamento, os
caudais dos rios estão quase exclusivamente dependentes da vazão superficial
e, portanto, das precipitações.
Durante as chuvas o caudal aumenta rapidamente (dado que o solo desprotegido
tem fraca capacidade de retenção da água), mas também depressa diminui
quando param as chuvas, porque a alimentação pelas nascentes tem pouco
significado, em resultado da grande profundidade das toalhas freáticas das áreas
adjacentes ao vale fluvial.
Água poluída
A água que não é útil para beber, lavar, irrigar ou ter uso industrial é chamada de água poluída. A poluição pode ser térmica, por radioisótopos, metais tóxicos, solventes orgânicos, ácidos ou bases. A água pode ser considerada poluída para alguns usos, mas não para outros. A água é poluída principalmente pela atividade humana, mas causas naturais como o assoreamento dos rios, a lixiviação de metais de rochas e do solo, e a presença de matéria orgânica oriunda de animais ou de taninos de vegetais em decomposição também são fontes de poluição.
Como a atividade poluidora humana é contínua, muitos governos tem passado legislações para a conservação e a não poluição da água disponível. As principais leis nesse sentido obrigam os agentes poluidores a tratar a água utilizada antes que ela seja devolvida ao rio ou lago, e são leis lógicas, pois é sempre mais fácil tratar a água antes de devolve-la ao meio ambiente, do que despoluir um rio ou um lago.
Hoje em dia, são geralmente aceitas oito
categorias gerais de poluentes:
|
Classes de
poluentes da água |
Exemplos |
|
Lixo que desoxigenam
a água |
Materiais vegetais e
animais |
|
Agentes infecciosos |
Bactérias e viroses |
|
Nutrientes vegetais |
Fertilizantes como
nitratos e fosfatos |
|
Compostos químicos
orgânicos |
Pesticidas e
detergentes |
|
Outros produtos químicos |
Ácidos de mineração
e ferro de siderúrgicas |
|
Sedimentos de erosão |
Areia e lama no leito
do rio, que pode destruir organismos que vivem na interface sólido-líquido |
|
Substâncias
radioativas |
Lixo da mineração e
processamento de materiais radiativos; material radiativo usado |
|
Calor oriundo da Indústria |
Água para refrigeração
industrial |
Órgãos como o do Serviço Público de Saúde
dos EUA tem preparado listas contendo o teor máximo permitido de níveis de
contaminação da água potável, que são aceitas como base para legislações
locais em muitos países, assim como o Brasil. Alguns exemplos de contaminantes
inorgânicos:
|
Contaminante |
Concentração máxima
(mg / L) |
|
Arsênio* |
0,05 |
|
Bário** |
1 |
|
Cádmio*** |
0,01 |
|
Chumbo**** |
0,05 |
|
Mercúrio# |
0,002 |
*A preparação desse elemento foi descrita com precisão por Paracelso (1520); era portanto conhecido desde os tempos medievais pelos alquimistas. Todos os meteoritos contém As, o que indica que a sua existência é comum no Universo. A maioria das formas alotrópicas do elemento, e quase a totalidade dos compostos de As são tóxicos. O próprio Paracelso, considerado o Pai da Farmacologia, deve ter sido morto pela auto ingestão de sais de arsênio. O isótopo artificial 76As é utilizado como traçador radiativo em toxicologia; o elemento é usado na manufatura de certos tipos de vidros especiais, e principalmente no endurecimento de ligas de cobre e chumbo. Recentemente foi feito um exame pericial de traços de fios de cabelo do célebre Napoleão Bonaparte. Tudo indica que ele morreu, extraditado que era (numa prisão!?) na ilha de Elba, pela inalação de compostos de arsênio provenientes da cola e dos papéis de parede de (a cela!?) onde estava preso.
**Todos os compostos de bário que são solúveis em água ou em ácidos são venenosos. Metal alcalino terroso da família do cálcio e do magnésio, tem amplo espectro de absorção dos raios x, e o composto praticamnte insolúvel sulfato de bário é utilizado como contraste para radiogfrafias do estômago e intestino. Sua capacidade de absorver radiação o torna útil como carreador de rádio (Rd) em usinas nucleares. É facilmente oxidável pelo ar.
***Da família do Bário, é subproduto da mineração do zinco. A substância e seus compostos devem ser considerados carcinogênicos. Utilizado como amálgama (com mercúrio) por dentistas. Usado na indústria eletrônica em várias aplicações, como nas baterias cádmio-níquel dos telefones celulares outras baterias epilhas recarregáveis.
****Um dos metais conhecidos desde a antiguidade. Macio, maleável, facilmente moldado e extrudado, é atacado pela água pura. A toxicidade humana aguda pode se desenvolver em crianças, onde pode causar danos ao cérebro, irreversíveis. Em adultos, a contaminação geralmente ocorre como dano ocupacional. 0,005 mg / L no sangue ou 0,008 mg / L na urina são indícios de envenenamento sério por chumbo. O chumbo, como o mercúrio, se acumula principalmente no cérebro, causando uma série de deficiências, desde a cegueira e paralisia, até a morte. O uso de canos de chumbo como material de canalização de água tem sido descontinuado desde a introdução de canos de PVC (cloreto de polivinila, ou do inglês, poly vinyl chloride). Muito utilizado em baterias de automóveis e como barreiras de proteção contra os raios x. Seus compostos servem como pigmentos para tintas a óleo, inclusive as residenciais, principalmente as amarelas. Existem evidências que demonstram que Cândido Portinari pode ter morrido por envenenamento por chumbo pela sua mania de lamber os pincéis para limpá-los das tintas a óleo utilizadas, antes da próxima pincelada.
#Ver nota sobre o Chumbo. Também chamado de prata líquida, ou prata rápida, é levemente volátil à temperatura ambiente, o que aumenta a sua toxicidade ocupacional, pela possibilidade da inalação contínua dos vapores do metal por trabalhadores em ambintes que empregam continuamente o elemento. O termo "liga" ou amálgama, significa a união de qualquer metal - exceto o ferro - com mercúrio. Combina-se facilmente com o enxofre à temperatura ambiente. Esse método, polvilhar enxofre sobre gotículas de mercúrio, é o método mais indicado de evitar a contaminação de organismos vivos pelo metal, pois HgS é razoavelmente insolúvel, quimicamente bastante inerte, e não volátil. O vapor é rapidamente absorvido pelo trato respiratório, mas engolir acidentalmente o metal não causa, aparentemente, nenhum dano a humanos. Mercúrio derramado ou os seus sais solúveis e vapores são corrosivos, e envenenamento crônico pode provocar a morte em até dez dias. No Brasil, garimpeiros de ouro, principalmente na Serra Pelada, tem sido envenenados e poluído grandes áreas de terras e águas por utilizarem o mercúrio: derramando o metal sobre minérios de ouro faz com que o amálgama - a liga entre Hg e Au - escorra do resto do minério; os garimpeiros então usam uma tocha produzida à partir de um botijão de gás de cozinha para evaporar o mercúrio e assim, obter o ouro puro. Utilizado em termômetros, barômetros, em lâmpadas que produzem raios ultravioleta, em lâmpadas fluorescentes (cuidado! Tente nunca quebrar uma delas!), na obtenção de metais à partir de seus minerais, principalmente o ouro e a prata, na preparação de amálgamas, como os utilizados por dentistas até hoje, em produtos farmacêuticos e agriculturais. Outro uso do mercúrio é como eletrodo em aparelhos eletroanalíticos, e na preparação industrial do alumínio. O maior acidente ecológico envolvendo mercúrio ocorreu na baía de Minamata, no Japão, logo após a II Grande Guerra: uma planta de produção de alumínio rachou, vazando toneladas de mercúrio para o mar. Algas das profundezas, que não necessitam de oxigênio (anaeróbicas), metabolizam o metal, produzindo um dos piores carcinogênicos que se conhece, o dimetilmercúrio, que passa à cadeia alimentar dos peixes. No Japão, o Sashimi, a carne de peixe crua, é um prato tradicional. Resultado: até hoje a baía de Minamata é completamente desolada (50 anos depois do acidente!), desabitada, considerada área proibida, e os descendentes daquela população continuam sofrendo de doenças e deformidades decorrentes do acidente. O "Mercúriocromo" foi uma tintura até recentemente utilizada como antibactericida caseiro e hospitalar. Por muito tempo foi a base do produto organometálico mais produzido pela indústria, o chumbo tetraetila, aditivante da gasolina, ainda hoje utilizado par melhorar a performance de motores a combustão submetidos a combustíveis ruins.
Alguns exemplos de contaminantes orgânicos:
|
Contaminante |
Concentração máxima
(mg / L) |
|
Endrin* |
0,0002 |
|
Lindano** |
0,004 |
|
Toxafeno*** |
0,005 |
|
2,4,5 TP (silvex)**** |
0,01 |
|
Trihalometanos,
incluindo o clorofórmio# |
0,1 |
*Da família de inseticidas à qual pertence o aldrin, muito utilizado no Brasil para umedecer sementes de arroz e milho, tornando-as tóxicas para cupins e assim proteger o plantio. O uso desses cupinicidas foi descontinuado nos EUA, mas a sua fabricação e exportação para países como o Brasil e a América do Sul e Ásia, continuam.
**Um dos isômeros biologicamente ativos do hexaclorociclohexano. Pode ter uso veterinário como ectoparasiticida. Inseticida, também é indicado para o tratamento e controle da infestação em humanos por piolhos. Consta da lista das substâncias carcinogênicas.
***Uma mistura complexa, porem reprodutível, de 177 possíveis compostos clorados resultado da clorinação industrial do canfeno, por isso também chamado de policlorocanfeno, entre outras de suas denominações. Tem um odor agradável de pinus. Utilizado como inseticida, não recomendado para estábulos de vacas e outros animais leiteiros, pois pode acabar sendo incorporado ao leite. A Dose Letal (LD50) desse (mistura de) produto é 90 mg /kg.
****Um dos nomes comerciais do ácido propiônico triclorofenoxi. Herbicida utilizado no controle de plantas lenhosas em áreas de plantio.
#Como todos os halogenados, suspeitos de serem carcinogênicos. Utilizados como solventes industriais. Antigamente, o clorofórmio era usado como anestésico, e é um dos principais componentes do lança-perfume, banido no Brasil.
A demanda bioquímica pelo oxigênio (DBO) da água
A forma como materiais orgânicos são oxidados na purificação natural das águas merece uma atenção especial, pois esse processo se opõe à eutroficação (do grego eutrofos, nutrir) da água. É fácil de se compreender a raiz da preocupação: mesmo em águas naturais, os organismos vivos estão constantemente liberando lixo orgânicos na água (na camiseta de um banhista, em uma praia conhecida, lia-se a mensagem "não bebo água, os peixes fazem sexo nela"). Ora, para transformar esses materiais em compostos inorgânicos simples, como CO2 e H2O, há a necessidade de reservas de oxigênio. A necessidade de oxigênio necessária para oxidar certo tipo de material é chamada, tecnicamente, de "demanda bioquímica de oxigênio". Os microoganismos e bactérias requerem o oxigênio para converterem matéria orgânica em comida, e dado o tempo necessário, em condições normais, tais organismos podem converter quantidades enormes de matéria orgânica em:
Carbono orgânico à CO2
Hidrogênio orgânico à H2O
Oxigênio orgânico à H2O
Nitrogênio orgânico à N2 ou NO3-
Existem métodos analíticos de se medir a demanda por oxigênio, mas o importante é notar que águas altamente poluídas por (micro)organismos orgânicos requerem grandes quantidades de oxigênio, e se esse oxigênio natural é pouco ou não está disponível, vai haver a putrefação. Com ela, os peixes e outras formas de vida aquática não poderão mais sobreviver. As bactérias aeróbicas, aquelas que necessitam de oxigênio para realizar o processo da decomposição da matéria orgânica, irão morrer. Com a morte dessas criaturas, mais matéria orgânica sem vida vai estar disponível, e a demanda biológica pelo oxigênio vai se elevar às alturas.
Felizmente a Natureza tem um sistema de "backup" para tais ocasiões. Bactérias anaeróbicas começam a tomar conta do pedaço, e, dado tempo suficiente, utilizam o oxigênio contido na matéria orgânica disponível, e a transformam nos desejados gás carbônico, água e nitrogênio gasoso. Daí, o processo aeróbico recomeça.
O problema começa com os resíduos industriais e domésticos de compostos orgânicos - muitos deles não biodegradáveis, que são lançados ao meio ambiente todos os dias. Esses resíduos podem, e geralmente o fazem, destruir por um tempo muito longo - dezenas de anos, ou uma ou mais gerações inteiras - toda a vida em um curso de um rio ou em um lago inteiro.
A demanda bioquímica por oxigênio pode ser bastante reduzida pelo tratamento dos resíduos industriais com oxigênio ou com ozone. Muitas das operações de "limpeza" das indústrias utilizam esse método, com o benefício extra de tornar, por oxidação parcial, alguns compostos não biodegradáveis em biodegradáveis. Um desses esforços é feito pela empresa Cutrale, de Araraquara, que produz suco concentrado de laranja. Em sua usina de tratamento, parte da água é chafarizada para aumentar o teor de oxigênio do caldo expelido no processo de amassagem das frutas.
Lixos industriais podem ser um caso sério de poluição, por não serem removidos, ou por serem removidos com dificuldade ou por serem removidos muito lentamente por processos naturais. Geralmente, eles não são removidos de forma nenhuma por plantas municipais de tratamento de água típicos. O problema é que geramos poluentes importantes à partir de produtos que são importantes no nosso dia a dia. Veja só:
Produtos importantes e o lixo perigoso
consequente:
|
Plásticos |
Compostos
organoclorados |
|
Pesticidas |
Compostos
organoclorados e organofosforados |
|
Produtos medicinais |
Solventes orgânicos,
metais pesados (por exemplo o mercúrio) |
|
Tintas |
Metais pesados,
pigmentos, solventes, resíduos orgânicos |
|
Derivados de petróleo,
óleo diesel e gasolina |
Óleos, fenóis,
chumbo de aditivos, ácidos, bases, e uma infinidade de outros compostos
orgânicos. Monóxido e dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio,
coadjuvantes na formação de chuva ácida |
|
Metais |
Metais pesados,
fluoretos, cianetos, limpadores ácidos e básicos, solventes, pigmentos,
abrasivos sais diversos, óleos, fenóis |
|
Couro |
Chumbo e zinco |
|
Indústria têxtil |
Metais pesados,
tinturas, compostos organoclorados, solventes orgânicos |
O depósito de lixo tem sido, há décadas, o método principal de se livrar de lixo urbano, industrial e agricultural. O líquido mal cheiroso produzido e liberado pelo "lixão", também conhecido por xorume, impregna a terra e afeta os canais aquíferos subterrâneos. Esse tipo de poluição carrega consigo todos os ingredientes possíveis de serem tragados pela água, por suas propriedades químicas e físicas. Outro meio de poluição é o descuido, o derramamento acidental ou intencional, de produtos, ou simplesmente lixo, diretamente no meio ambiente. No ano passado reportamos em nosso site o derramamento de compostos orgânicos com consequências desastrosas para a população, aqui mesmo em Araraquara, que afetou as águas de um córrego de importância econômica para a cidade. Outros exemplos bem paulistas são os canais dos rios Tietê e Pinheiros que circundam a megacidade de São Paulo, e cuja despoluição têm levado embora rios de reais, sem que o problema tenha sido solucionado. O que é sempre necessário dizer é que locais que são (ou foram) duramente poluídos, custarão bilhões de reais para se tornarem novamente habitáveis por organismos vivos sadios. Foi noticiado no jornal Folha de São Paulo em 31 de Agosto de 2000: 47% do lixo industrial de São Paulo não é tratado. Como o Estado produz algo como 21 milhões de toneladas de lixo sólido por ano, 10 milhões de toneladas são simplesmente jogadas no meio ambiente. A Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo, CETESB, assume que pelo menos 250 mil toneladas (um quarto de trilhão de quilos / ano) desse lixo está na lista dos poluentes considerados perigosos. O custo para o Estado da despoluição ambiental decorrente da ação humana nesse, assim como em outros casos, é simplesmente inimaginável; o custo para a natureza, impensável.
Mesmo no caso do Estado de São Paulo, resíduos que são considerados perigosos, são depositados em um campo que foi tornado impermeável pelo uso de plásticos fortificados, ou então são incinerados, ou ainda, tratados quimicamente de uma forma a torna-los não perigosos. Mesmo assim, o perigo de poluição de águas subterrâneas tem de ser continuamente monitorado para a prevenção de graves acidentes ambientais, com consequência direta ao bem estar da população.
O lixo caseiro como lixo tóxico
Normalmente nós não damos a mínima para
aquilo que nós jogamos no saco de lixo, mas o que descartamos, e a forma que o
fazemos, pode influir na qualidade da água subterrânea que, eventualmente, nós
iremos necessitar. Se o nosso lixo caseiro é incinerado, poderemos estar
contribuindo para a poluição atmosférica (principalmente no tocante à formação
de gases de enxôfre e nitrogênio, grandes responsáveis pela chuva ácida).
Entretanto, a maior parte, ou a totalidade dela, dependendo do município em que
vivemos, vai mesmo para os lixões, depósitos a céu aberto sem nenhuma, ou
muito pouca, proteção ambiental. Portanto nós também estamos contribuindo
ativamente para o aumento da poluição da água subterrânea. Veja uma coleção
de tralhas caseiras, e o que elas contém, e o método recomendado para o
descarte:
|
Tipo de produto |
Ingrediente perigoso |
Método de descarte |
|
Mata moscas |
Pesticidas e
solventes orgânicos |
Especial |
|
Limpador de forno |
Produtos cáusticos |
Pia |
|
Limpadores de
banheiros |
Cáusticos ou ácidos |
Pia |
|
Polidor de móveis |
Solventes orgânicos |
Especial |
|
Latas aerosol vazias |
Solventes e
propelentes |
Lixo |
|
Removedor de esmalte
de unhas |
Solventes orgânicos |
Especial |
|
Esmalte de unhas |
solventes |
Lixo |
|
Anticongelantes |
Metais e solventes
orgânicos |
Especial |
|
Inseticidas |
Pesticidas e
solventes |
Especial |
|
Baterias de automóveis |
Ácido sulfúrico e
chumbo |
Especial |
|
Remédios com
validade vencida |
Compostos orgânicos |
Pia |
|
Tinta latex |
Polímeros orgânicos |
Pia |
|
Gasolina |
Solventes orgânicos |
Especial |
|
Óleos de motores |
Solventes orgânicos
e metais |
Especial |
|
Desentupidor de ralos |
cáusticos |
Pia |
|
Graxa de sapatos |
Graxas e solventes |
Lixo |
|
Tintas a base de óleo |
Solventes orgânicos |
Especial |
|
Baterias de mercúrio,
ou níquel-cádmio |
Metais pesados |
Especial |
|
Mata baratas |
Compostos orgânicos
clorinados |
Especial |
Nota: especial refere-se ao tratamento de um lixo perigoso, a princípio, tem de ser feito por um profissional; pia significa o descarte na pia, tanque ou pelo vazo sanitário. Lixo quer dizer lixo normal, não há danos à água subterrânea. Normalmente, nós colocamos os itens marcados como Especial no lixo comum, contribuindo assim para a poluição das nossas águas.
Em todo o mundo, não só no Brasil, as (os) donas (donos) de casa tem dificuldades em jogar fora produtos químicos que são potencialmente perigosos. Mesmo que cidades modelos tenham projetos ativos para a reciclagem de papel, vidro, metais e plásticos, a maioria delas não tem condições de recolher em separado tais materiais do lixo comum que é destinado ao lixão. Os "descartes profissionais" que existem no Brasil - e a regra serve para o mundo todo - são privativos das indústrias, que não fornecem serviços ao cidadão comum a preços que ele pode pagar, portanto não há saída. Até o Instituto de Química de Araraquara tem dificuldade em descartar os resíduos gerados pelo ensino da Química, e pela pesquisa aqui realizada. Essa condição é comum a todas as Universidades do País.
Como é que podemos dispor de lixo caseiro
perigoso ao lençol aquífero? Algumas cidades européias, principalmente na
Holanda, tem caminhões especiais para cada tipo de lixo. Mas podemos tomar
medidas pessoais, como só comprar, ou levar para casa, o que acharmos necessário:
qualquer tentativa de levar muita coisa para casa, para aproveitar o preço
baixo, por exemplo, é um convite para que eventualmente tenhamos um monte de
inutilidades, muito lixo para jogarmos fora. A reciclagem de lixo doméstico
pode ser um fator muito importante para diminuir a carga das autoridades
municipais em reciclar o lixo das cidades. Campanhas de reciclagem de papel, de
latas de alumínio, de óleos de motor, e outros itens devem ser acatados e
incentivados. De qualquer forma, a consciência do cidadão deve sempre estar
voltada no sentido de diminuir a sua parcela de agente poluidor do lençol aquífero
de sua cidade e da região onde crescerão os seus filhos e, possivelmente, seus
netos.